100% Mooca

Nasci no bairro do Brás, divisa com a Mooca, nas cercanias do centro da cidade de São Paulo. Na Rua Visconde de Parnaíba, coloquei pela primeira vez os pés, após apreender a andar, deixando de engatinhar.
Nasci há sessenta e três atrás, e não há nada na Mooca que eu não saiba um pouco, e alguma coisa que eu me esqueça do Brás.

Residindo nesse local, fui um privilegiado, brincava de mãe da rua todas as noites de verão, atravessava a rua feito o saci-pererê, negrinho de uma perna só, e já estava na Mooca, retornava com a mesma perna e estava no Brás, novamente.

Nessas noites de verão, as famílias (imigrantes e filhos de imigrantes na sua maioria) levavam as cadeiras para a calçada e lá ficavam conversando, onde os gestos e os sotaques eram marcantes (falavam com as mãos gesticulando), e nós crianças, correndo e brincando.

Recordo da procissão atravessando a rua por completo, em que padres, clérigos e coroinhas saiam paramentados, carregando imagens e crucifixos, seguidos pelos fiéis, formados em diversas alas, entoando cantos e rezas.
O séqüito detinha-se defronte à Padaria Napolitana lado Mooca da Rua Visconde. A contribuição da panificadora às exéquias de Jesus era grande.

A Madona (representava a mãe de Jesus a Nossa Senhora), toda de negro, em cima de uma cadeira previamente preparada, retirava o véu do rosto e iniciava expressar-se no contralto. A mulher exibia uma beleza serena, de traços suaves e regulares.

A procissão provinha da Paróquia de San Gennaro (São Januário), da Rua da Mooca, e não comemorava a liquefação do sangue do santo, e sim a semana santa. Ouvia-se um silêncio ensurdecido nas ruas. Após a passagem da Verônica, a procissão seguia pelas ruas geladas do bairro fazendo com que o trânsito fosse interrompido causando uma imensa fileira de bondes parados na Rua da Mooca. Os passageiros aguardavam o deslocamento da procissão pesarosos, e no mais profundo respeito.

Os bondes que interrompiam a viagem, por ocasião das procissões eram de propriedade da Ligth, do tipo aberto, estribos do lado direito e esquerdo, por onde o cobrador circulava. A cobrança da passagem era feita diretamente ao passageiro e registrava o pagamento num relógio mecânico acionado por um pingente, em forma de gota, de tira de couro. A cada registro o relógio emitia um aviso sonoro e as más línguas tripudiavam os cobradores (portugueses na sua maioria e bigodudos): — “tlim-tlim” dois pra Light e um pra mim “. A minha turma, de moleques, que não queria pagar, antes que eles chegassem com as tiras de notas enfiadas entre os dedos saltávamos.Éramos os famigerados, “chocadores de bonde”.Fazíamos malabarismos circenses para não pagar.Os mais ágeis chegavam a pular de costas, com o bonde em movimento. Continuavam o movimento das pernas,esse era o segredo pra não cair.

Na sexta-feira santa, o caixão com Jesus Cristo morto ficava na entrada da Igreja, à esquerda, ao lado da sacristia. Os fieis iam visitá-lo durante o dia inteiro. Olhavam e derramavam o sinal da cruz pelo corpo, pingando água benta no chão. Ao lado uma pequena urna para as pequenas doações.

Após a procissão esperávamos com ansiedade o dia seguinte, o Sábado da Aleluia e a malhação do acusado, o grande culpado por todo aquele acontecimento desastroso: — O Judas!Vestido de político da época. Lembranças….. que ainda guardo na memória.

Guardo ainda na minha memória olfativa o perfume do molho de tomate que se espalhava pela casa, inseridos nos bicos dos pães cortados, ocos, forrados com o miolo, impedindo que vazasse. Essa alquimia italiana minha esposa nunca conseguiu fazer igual, após muitas tentativas em achar qual tempero faltava. Talvez faltasse o cenário das ruas: — A conversa que se jogava fora, junto aos vizinhos, sentados com o espaldar das cadeiras encostado aos peitos. Os churros degustados, (nas madrugadas, após os bailes de formatura) mesmo após o fechamento da Churraria da Rua Ana Nery mantenho o habito em experimentá-los, guardei a receita de minha mãe e a churreira (aparelho para derramar a massa na frigideira).Continuo saboreando Mooca…

Nos dias atuais, já aposentado continuo residindo no bairro da Mooca. Passeio de trólebus, orando pro mesmo santo para que os suspensórios não caiam mais de três vezes. Compro o pão italiano e minhas frutas, recomendadas, na feira confinada da Rua dos Trilhos. Ainda sou 100% do bairro. Sou 100% Mooca!

Rubens Ramon Romero
Consultor de Marketing Aposentado
Blog: Memórias do Brás e da Mooca

1 Comentário

  1. Ivanise Gianni

    Oi Rubens!!!

    mamae mandou dizer que o segredo do molho é o toucinho e as azeitonas verdes!!!! deixar apurar engrossando com a massa de tomate!!! Ela pede a receita dos churros!!!!

    Meus pais moravam na Visconde de parnaíba e eu moro até hoje!!!

    Beijos

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